Cada um de nós, à sua maneira, ficou meio obcecado por Alice. Não que alguém soubesse qualquer coisa a fundo sobre ela, pelo menos não mais do que o pouco que ela nos permitia conhecer. Aquele dia no bar, Alice só nos deu muitos "sim, sim", "tudo bem", "é claro" e "com certeza". Eu nem conseguia conversar . Estava hipnotizado. Joãozinho também ficou quieto, as cervejas sucessivas servindo apenas para deixá-lo ainda mais tímido. Como sempre, o Duca, o poeta das ruas, o mais velho, líder de nossa gangue, teve a decisiva coragem. Foi a partir dele que chegamos ao redor dela, como gatos desconfiados, para ouvir sua voz suave, seu sorriso lento.
Alice, sem querer, envolveu a todos no seu feitiço de cigana esquiva, que pouco fala e muito escuta. Arrastou-nos para o epicentro de seu mistério, de onde eu nunca consegui sair. Naquela noite de bar, cada um tomou para si a firme idéia de transformar aquela Lolita na sua garota. Duca já sonhava com a maciez de sua virgindade intocada. Mano tinha fome dos seus olhos granes, por onde vislumbrava noites de pecado. Jão só pensava nas pernas dela entrelaçadas às suas, e Joãozinho, o pobre e jovem João, alimentava, talvez, os desejos mais puros de nós. Eu só pensava em conhecê-la. Queria fazer do meu nome o seu sussurro no sono, e da minha imagem o seu rosto de desejo. Queria que ela me amasse, porque de todo coração me entreguei a ela.
Passamos a chamá-la para nossas noites de bebedeira nas madrugadas frias, onde só o seu sorriso aquecia nosso coração. Ela aparecia vezes sim, vezes não. Era sempre inesperada, nunca se repetia. Por algum mistério, sabia exatamente onde nos encontrar, embora nenhum de nós jamais tenha seguido seus passos e descoberto aonde se escondia. Alice ia embora com a noite, levando consigo toda luz do mundo.
Combinava os vestidos floridos com tênis e coturnos, e quando usava calça jeans, calçava havaianas velhas. Os cabelos estavam sempre soltos, rebeldes, caindo em ondas pelas costas pequenas. As pernas eram longas, não grossas, mas bonitas, como as pernas de Dietrich. A única maquiagem que tinha era um batom vermelho, vibrante, da cor viva que tem o sangue. Eu passei a viver apenas na esperança de vê-la chegar.
Dela não sabíamos nada. Nem onde morava, nem onde estudava, nem quem eram seus pais. Um dia disse ser aluna do Colégio de Freiras, então Duca a esperou na saída por uma semana: ela não apareceu. Um dia deixou que Jão a levasse para casa, só para parar em frente a uma igreja e entrar, abandonando-o sem qualquer explicação. A cada um deles ela fez promessas, dando-lhes minutos rápidos de felicidade, antes de perceberem que jamais tiveram muito dela além de sua atuação. Alice os agradava a todos, menos a mim. Eles sorriam, gritavam, dançavam ao seu redor, enquanto ela apenas os seguia de um lado a outro, sem se misturar. Eu ficava quieto, me fazia mudo, o meu desejo transformando-se em dor diante daquela desatenção.
O pior é que talvez eu tenha sido o único a perceber que ela não era nossa. Duca a elegeou como sua musa, mas ela jamais entrou de verdade em suas poesias. Alice era apenas dela mesma, e do mundo no qual vivia segura de nossas investidas. Isso ficou claro pra mim quando a vi com aquele rapaz. Não lembro o nome dele. Vi os dois se beijando na saída da faculdade, e a volúpia com que ela o abraçava, como se o consumisse ao redor de seus braços, me deixou chocado. Nunca tive tanta raiva. Ela me viu e não disse nada. Continuou nos encontrando só quando queria, sem dar nenhuma explicação, o que me deixava irado porque, primeiramente, eu não tivera coragem de contar a nenhum dos meus irmãos bandidos sobre a traição daquela Gautier. E me enfurecia mais ainda por não perceber nela nenhuma culpa, por saber que não devia senti-la, já que não era nossa posse.
Passei a evitar Alice, e na medida em que eu detestava, meu desejo por sua personalidade estranha crescia e crescia a ponto de se tornar insuportável. Crescia também o fascínio que ela exercícia sobre nosso grupo. Incrível como uma menina de 15 anos soubesse ser tão hipnotizante. Alice não era a mais bonita das garotas, Patrícia a desbancaria facilmente. Mas havia algo naquela sua recusa, algo no seu jeito esquivo de animal desconfiado, na languidez dos seus movimentos despreocupados que era mais atraente que tudo. E ela falava como num filme.
Ouvi o final de uma conversa dela com Joãozinho, quando disse isso:
- Vou fazer uma oferta que ele não poderá recusar.*
De outra vez, a ouvi dizer para uma garçonete que lhe trouxe balas no troco da cerveja:
- Balinhas macias, hummm. Se tem uma coisa que eu gosto de chupar são balinhas macias.
Mas a mais teatral de todas foi aquela em que, durante o lanche que fazíamos depois de fumar maconha, ela gritou pra nós:
- Sabem como chamam um quarteirão com queijo em Paris? Chamam de Royale com queijo.
E dizia isso com uma naturalidade provocante, como se nos desafiasse a contradizê-la. Era um demônio. Queria matá-la. Comecei a sentir saudade do meu sofrimento por Patrícia, que era afinal apenas o sofrimento por uma garota cujo espécime se encontra em abundância por aí. Alice me consumia, e desde que a vira aos beijos com o outro, sentia comigo que partilhávamos o segredo de um crime perigoso, o qual nenhum dos dois se arriscaria a contar.
Uma madrugada, porém, e tudo mudou. Ficamos sozinhos na cozinha do Mano porque eu tinha ido pegar cervejas e ela foi ajudar. Passou por mim sem olhar direito, mas nela não havia desprezo, só despreocupação. Eu era alguém da turma, e os caras da turma para Alice eram um tipo de amor genuíno que não admitia qualquer espécie de indiferença. Na minha revolta de bicho acuado, porém, eu decidi lhe perturbar a paz, só pra que ela sentisse um pouco da mesma ferida que já me doía há dias.
- Porque você faz isso?
- An?...
- Isso... Essa mania de... Esse jeito de ficar brincando com todo mundo, de fazer todo mundo de besta.
- Não tô entendendo.
- Tá sim, não banca a sonsa. Você fica posando de amiguinha da galera, pra que?
Ela ficou altiva, e antes que falasse eu soube que viria uma das suas frases prontas de cinema:
- Eu sempre quis ser uma gangster.
- Isso NÃO é uma piada, Alice. Não é justo você mentir pra todo mundo. Ninguém sabe nada de você, ninguém tem nada de você. Você diz que é "da gangue", mas que prova de confiança já deu? Sacou? Você aqui é uma mentira.
Acertei em cheio porque ela ficou ofendida e saiu sem responder. Passou o resto da noite, porém, conversando mais que nunca, distribuindo seus sorrisos imorais. Quando tudo acabou, fomos indo embora aos poucos. Ela, como sempre, saiu primeiro, sozinha. Vesti minha jaqueta velha meio arrependido por ter sido grosso, e com medo de parecer ciumento, o que era verdade. Só na porta de casa, quando meti a mão nos bolsos para pegar as chaves, percebi o pequeno bilhete:
Rua Império, nº 66, Setor Colonial.
Apareça à meia-noite.
Você sabe como assoviar, não sabe, Pilgrim? É só unir os lábios e soprar.
Talvez seja este o começo de uma grande amizade.
Sorri comigo mesmo. Mais do que nunca, amei aquelas frases vindas do cinema.
(* As frases em negrito são, respectivamente, dos filmes: O Poderoso Chefão; A Costela de Adão; Pulp Fiction; Os Bons Companheiros; Uma Aventura na Martinica e Casablanca.)
(* As frases em negrito são, respectivamente, dos filmes: O Poderoso Chefão; A Costela de Adão; Pulp Fiction; Os Bons Companheiros; Uma Aventura na Martinica e Casablanca.)