sexta-feira, 1 de junho de 2012

Parte III - Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade!

Cada um de nós, à sua maneira, ficou meio obcecado por Alice. Não que alguém soubesse qualquer coisa a fundo sobre ela, pelo menos não mais do que o pouco que ela nos permitia conhecer. Aquele dia no bar, Alice só nos deu muitos "sim, sim", "tudo bem", "é claro" e "com certeza". Eu nem conseguia conversar . Estava hipnotizado. Joãozinho também ficou quieto, as cervejas sucessivas servindo apenas para deixá-lo ainda mais tímido. Como sempre, o Duca, o poeta das ruas, o mais velho, líder de nossa gangue, teve a decisiva coragem. Foi a partir dele que chegamos ao redor dela, como gatos desconfiados, para ouvir sua voz suave, seu sorriso lento.

Alice, sem querer, envolveu a todos no seu feitiço de cigana esquiva, que pouco fala e muito escuta. Arrastou-nos para o epicentro de seu mistério, de onde eu nunca consegui sair. Naquela noite de bar, cada um tomou para si a firme idéia de transformar aquela Lolita na sua garota. Duca já sonhava com a maciez de sua virgindade intocada. Mano tinha fome dos seus olhos granes, por onde vislumbrava noites de pecado. Jão só pensava nas pernas dela entrelaçadas às suas, e Joãozinho, o pobre e jovem João, alimentava, talvez, os desejos mais puros de nós. Eu só pensava em conhecê-la. Queria fazer do meu nome o seu sussurro no sono, e da minha imagem o seu rosto de desejo. Queria que ela me amasse, porque de todo coração me entreguei a ela.

Passamos a chamá-la para nossas noites de bebedeira nas madrugadas frias, onde só o seu sorriso aquecia nosso coração. Ela aparecia vezes sim, vezes não. Era sempre inesperada, nunca se repetia. Por algum mistério, sabia exatamente onde nos encontrar, embora nenhum de nós jamais tenha seguido seus passos e descoberto aonde se escondia. Alice ia embora com a noite, levando consigo toda luz do mundo.

Combinava os vestidos floridos com tênis e coturnos, e quando usava calça jeans, calçava havaianas velhas. Os cabelos estavam sempre soltos, rebeldes, caindo em ondas pelas costas pequenas. As pernas eram longas, não grossas, mas bonitas, como as pernas de Dietrich. A única maquiagem que tinha era um batom vermelho, vibrante, da cor viva que tem o sangue. Eu passei a viver apenas na esperança de vê-la chegar.

Dela não sabíamos nada. Nem onde morava, nem onde estudava, nem quem eram seus pais. Um dia disse ser aluna do Colégio de Freiras, então Duca a esperou na saída por uma semana: ela não apareceu. Um dia deixou que Jão a levasse para casa, só para parar em frente a uma igreja e entrar, abandonando-o sem qualquer explicação. A cada um deles ela fez promessas, dando-lhes minutos rápidos de felicidade, antes de perceberem que jamais tiveram muito dela além de sua atuação. Alice os agradava a todos, menos a mim. Eles sorriam, gritavam, dançavam ao seu redor, enquanto ela apenas os seguia de um lado a outro, sem se misturar. Eu ficava quieto, me fazia mudo, o meu desejo transformando-se em dor diante daquela desatenção.

O pior é que talvez eu tenha sido o único a perceber que ela não era nossa. Duca a elegeou como sua musa, mas ela jamais entrou de verdade em suas poesias. Alice era apenas dela mesma, e do mundo no qual vivia segura de nossas investidas. Isso ficou claro pra mim quando a vi com aquele rapaz. Não lembro o nome dele. Vi os dois se beijando na saída da faculdade, e a volúpia com que ela o abraçava, como se o consumisse ao redor de seus braços, me deixou chocado. Nunca tive tanta raiva. Ela me viu e não disse nada. Continuou nos encontrando só quando queria, sem dar nenhuma explicação, o que me deixava irado porque, primeiramente, eu não tivera coragem de contar a nenhum dos meus irmãos bandidos sobre a traição daquela Gautier. E me enfurecia mais ainda por não perceber nela nenhuma culpa, por saber que não devia senti-la, já que não era nossa posse. 

Passei a evitar Alice, e na medida em que eu detestava, meu desejo por sua personalidade estranha crescia e crescia a ponto de se tornar insuportável. Crescia também o fascínio que ela exercícia sobre nosso grupo. Incrível como uma menina de 15 anos soubesse ser tão hipnotizante. Alice não era a mais bonita das garotas, Patrícia a desbancaria facilmente. Mas havia algo naquela sua recusa, algo no seu jeito esquivo de animal desconfiado, na languidez dos seus movimentos despreocupados que era mais atraente que tudo. E ela falava como num filme.

Ouvi o final de uma conversa dela com Joãozinho, quando disse isso:
- Vou fazer uma oferta que ele não poderá recusar.*
De outra vez, a ouvi dizer para uma garçonete que lhe trouxe balas no troco da cerveja:
- Balinhas macias, hummm. Se tem uma coisa que eu gosto de chupar são balinhas macias.
Mas a mais teatral de todas foi aquela em que, durante o lanche que fazíamos depois de fumar maconha, ela gritou pra nós:
- Sabem como chamam um quarteirão com queijo em Paris? Chamam de Royale com queijo.

E dizia isso com uma naturalidade provocante, como se nos desafiasse a contradizê-la. Era um demônio. Queria matá-la. Comecei a sentir saudade do meu sofrimento por Patrícia, que era afinal apenas o sofrimento por uma garota cujo espécime se encontra em abundância por aí. Alice me consumia, e desde que a vira aos beijos com o outro, sentia comigo que partilhávamos o segredo de um crime perigoso, o qual nenhum dos dois se arriscaria a contar.

Uma madrugada, porém, e tudo mudou. Ficamos sozinhos na cozinha do Mano porque eu tinha ido pegar cervejas e ela foi ajudar. Passou por mim sem olhar direito, mas nela não havia desprezo, só despreocupação. Eu era alguém da turma, e os caras da turma para Alice eram um tipo de amor genuíno que não admitia qualquer espécie de indiferença. Na minha revolta de bicho acuado, porém, eu decidi lhe perturbar a paz, só pra que ela sentisse um pouco da mesma ferida que já me doía há dias.
- Porque você faz isso?
- An?...
- Isso... Essa mania de... Esse jeito de ficar brincando com todo mundo, de fazer todo mundo de besta.
- Não tô entendendo.
- Tá sim, não banca a sonsa. Você fica posando de amiguinha da galera, pra que?
Ela ficou altiva, e antes que falasse eu soube que viria uma das suas frases prontas de cinema:
- Eu sempre quis ser uma gangster.
- Isso NÃO é uma piada, Alice. Não é justo você mentir pra todo mundo. Ninguém sabe nada de você, ninguém tem nada de você. Você diz que é "da gangue", mas que prova de confiança já deu? Sacou? Você aqui é uma mentira.

Acertei em cheio porque ela ficou ofendida e saiu sem responder. Passou o resto da noite, porém, conversando mais que nunca, distribuindo seus sorrisos imorais. Quando tudo acabou, fomos indo embora aos poucos. Ela, como sempre, saiu primeiro, sozinha. Vesti minha jaqueta velha meio arrependido por ter sido grosso, e com medo de parecer ciumento, o que era verdade. Só na porta de casa, quando meti a mão nos bolsos para pegar as chaves, percebi o pequeno bilhete:

 Rua Império, nº 66, Setor Colonial.
Apareça à meia-noite.
Você sabe como assoviar, não sabe, Pilgrim? É só unir os lábios e soprar.
Talvez seja este o começo de uma grande amizade.

Sorri comigo mesmo. Mais do que nunca, amei aquelas frases vindas do cinema.


(* As frases em negrito são, respectivamente, dos filmes: O Poderoso Chefão;  A Costela de Adão; Pulp Fiction; Os Bons Companheiros; Uma Aventura na Martinica e Casablanca.)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Parte II - A quem te compararei, ó filha de Jerusalém?

... 'cause everybody knows (she's a femme fatale)
the things she does to please (she's a femme fatale)
she's just a little tease (she's a femme fatale)
see the way she walks
hear the way she talks.

Havia um bar na saída da cidade em que todos os fracassados se encontravam quando anoitecia. Formavam uma procissão pagã de homens cansados e mulheres cujas famílias já as tinham esquecido há tempos, reunindo-se no seu templo velho e decadente para fazer oferendas de álcool e cigarros. Comecei a frequentá-lo com minha turma de santos viciados porque queríamos alguma experiência verdadeiramente genuína em meio à imensa onda de aparências na qual mergulhavam as pessoas da nossa idade. Estourar a explosão de nossa juventude em copos etílicos cheios de poeira. E, é claro, eu queria esquecer Patrícia.

A minha vida então se resumia aos seus cabelos loiros, aos peitos redondinhos que eram os mais maravilhosos da cidade. Devo explicar que Patrícia era à época a garota dos meus sonhos, aquela por quem eu passava horas insones, por quem comecei as sessões de bebedeira atravessando madrugadas seguidas. Ela, a imagem das minhas preces na sarjeta, o nome que ecoava enquanto meu peito se retraía. Tivemos um caso incendiário no primeiro ano de faculdade que terminou com palavras ofensivas porque de repente ela decidira estar mais interessada em conhecer todos os outros caras que também a idolatravam. O que eu poderia oferecer com meus jeans rotos rasgados e minhas jaquetas velhas? Patrícia ficou cansada de seus amantes vagabundos e partiu numa jornada experimentalista de homens mais velhos e educados. Foi depois disso que me juntei à romaria de perdedores que todos os dias marchava prostrada rumo ao bar suburbano na saída da cidade.

Aos 18 anos eu já tinha uma reputação lamentável de marginal à qual fazia questão de sustentar com meu andar gingado e a barba mal feita. Minhas roupas estavam sempre cheirando cigarro e meus sapatos nunca eram lavados porque eu queria conservar neles as marcas de todas as expedições noturnas que fazia pelas ruas da cidade. Eu e meus amigos bandidos. A faculdade era uma distração, a única coisa que me livrava realmente de ser o pior dos sujeitos. Tinha feito o favor de passar para agradar meu velho pai, com quem morava num pequeno apartamento cheio de quadros e esculturas antigas trazidas dos inúmeros lugares onde ele estivera. Meu velho é um historiador.

Já eu, sou um vagabundo de corpo e espírito. Tudo que queria era pegar algumas garotas gostosinhas e varar as noites da minha vida em bebedeiras colossais. Era razoavelmente bem sucedido nessa empreitada. Encontrei um número incrível de gatinhas que tinham quedas por sujeitos sem futuro como eu, e me fartava nelas e elas se fartavam em mim. Dentre todas, porém, vocês sabem quem eu desejava. Mas hoje, quando meus verões de garoto inconsequente passaram, eu sei: Patrícia era apenas minha Rosalina. O melhor estava por vir.

Ele se materializaria diante de mim como uma visão lasciva do paraíso, como ver a nudez de um anjo. Alice, a Alice dos meus sonhos inconscientes, estava prestes a entrar em mim para não sair nunca mais. Mas quem primeiro a viu foi João, o mais novo e bonito de nós. A viu dentro de um vestido de flores primaveris, os óculos de coração vermelho escondendo seus olhos de Capitu, as pernas longas com alguns arranhões e por fim aqueles pés pequenos metidos num imenso coturno escuro que lhe subia até as canelas. Ah, era Brunhilde que vinha escolher os maiores fracassados e levá-lo ao Valhalla dos bêbados. Era Afrodite, Helena e Salomé. Era Dalila e Cleópatra e Lolita, no auge dos seus 15 anos. Uma visão, uma visão que eu sequer notara porque estava ocupado demais tentando impressionar uma prostituta com quem queria trepar de graça. Só João a viu entrando naquele templo de desilusões e suor, exatamente ao pôr-do-sol, que é o momento mais mágico de todos. É o crepúsculo, o interstício, a hora em que a criação prende a respiração e os segundos ficam em suspenso como que à espera do fim do mundo. Àquela hora ela se sentiu num canto ajeitando a barra de seu vestido que mostrava o início de lindas coxas de 15 anos.

Ele nos narrou depois os longos minutos que passou lutando contra si mesmo no desejo mais sincero de ir falar com aquela Graça, mas sem um pingo de coragem em seu coração tímido de rapaz que apenas começara a se deitar em braços de mulher. Olhava de um lado ao outro para se certificar de que era o único que a via porque não queria compartilhar com ninguém a visão do seu anjo pecaminoso. Mas é claro que alguns caras já reparavam. E murmuravam entre si especulando quem seria a beldade adolescente, capaz de criar as fantasias mais pervertidas na mente dos pobres bêbados marginais que éramos. Alguns não bêbados, apenas marginais.

No seu desespero de insegurança, o nosso querido Joãozinho decidiu ir tomar um trago e ganhar coragem para sentar-se junto a ela e se apresentar “oi, posso te pagar uma bebida?” “ah sim, claro”, como deveria ser e como era com todos os outros caras. E mal imaginou que Alice sabia pedir por si própria. Ela atravessou a sala de mesas semi-vazias atraindo olhares sedentos de todos os bandidos ao redor e veio instalar-se ao balcão onde eu bebia descontroladamente sem notá-la. E eu estava absorto demais até para reparar no seu perfume chamado 15 anos.

Senti aquele toque suave no braço como se ele viesse de outra vida e quando me virei lentamente, lentamente, anos contidos nesse momento, só vi aqueles óculos de coração vermelho e uma boca igualmente rubra que me dizia:

- Tem uma abelha no seu ombro.

No exato segundo em que olhei de relance para ver o minúsculo insetinho meio amarelo que talvez fosse me picar a qualquer instante, repelindo-o para olhar de novo aquele rosto que ainda não ficara definido na minha cabeça de bêbado, foi então que eu soube, perdido no seu sorriso: eu tinha sido picado.
 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Parte I - No princípio era o Verbo

... if i listened to my mama
Lord, i'd be home today/
but i was young and foolish
handsome rider led me astray.

Eu preciso contar sobre essa garota chamada Alice. Não valeria a pena escrever sobre nada que não fosse ela. E simplesmente porque é a história mais incrível e louca da qual jamais ouvi falar - e da qual eu próprio participei por um bom tempo. Mesmo agora, longos anos passados, ainda me sinto envolvido até o último fio de cabelo, até o mais íntimo do coração, em todos aqueles verões insanos. Porque a amo. Amo tanto que enredei minha vida numa série de caminhos entrecruzados que me levassem aos dela; tanto que larguei os velhos planos de um mestrado francês só para poder expiar todos os meus erros e pecados nos seus braços de Calíope.

Essa é a história de como me perdi em Alice. Ela foi meu oceano. 

...

No início dos anos 90 Alice era uma linda garota pré-adolescente no seio da família mais inacreditável de todas. Seu pai: o velho e louco mecânico (apenas de motos!) José Carlos Martines, vulgo Carlão. Motoqueiro, membro dos Abutre's, ex-beberrão, ex-viciado, ex-tatuador e até ex-detento se contarem as duas semanas em que ficou preso por uma briga de bar, em tempos imemoriais. Sua mãe: a mais maravilhosa professora de ioga que já existiu, Elba Martines. Antes disso, a mais maravilhosa hippie, a mais maravilhosa dançarina, a mais maravilhosa atriz e a mais maravilhosa cantora não-revelada das noites de calor e blues.

Moravam os três num casarão colonial da Rua Império, um lugar que cheirava a passado e mistérios, a segredos jamais descobertos e histórias nunca contadas. Ele provavelmente abrigou alguma família respeitável o suficiente para ter escravos no Brasil Colônia. E toda aquela enorme entidade antiga, quase um ser vivo por si só, Carlão comprou por uma bagatela no fim de 70 assim que se casou com a jovem e deliciosa Elba - e isso, vale dizer, aconteceu uma semana depois que se conheceram nestas ruas que unem vários caminhos sem que alguns sequer se toquem, enquanto outros ficam para sempre. 

À época, o casarão estava decrépito a ponto de ser condenado pela Vigilância Sanitária, mas Carlão tinha então 30 anos, no auge do seu vigor físico, e decidiu reconstruir com os próprios suor e braços o futuro abrigo secreto e imaculado de seu amor. Assim foi que, por um bom tempo, Elba e ele tiveram apenas ratos, aranhas e vários animais peçonhentos como companhia. Não que ela se importasse, porque contava ali 20 anos e estava disposta a tudo desde que o seu motoqueiro tatuado e louco estivesse ao lado. Essa é uma das coisas maravilhosas sobre Elba. Ela nunca reclama, está sempre pronta, você pode chegar do nada e dizer: "quer cruzar o mundo comigo?", e ela responderá: "é pra já!". Imagino a garota linda e picante que ela deve ter sido quando conheceu Carlão e abandonou os estudos só para segui-lo pelo mundo afora. Mas essas são outras histórias. O que importa agora é que, depois de cinco meses de trabalho dia-e-noite, noite-e-dia, o casarão ficou pronto, e eles viveram lá felizes aquele amor incendiário cujo ápice foi o nascimento de Alice. 

E que criança encantadora ela era, meu Deus! Sinto meu coração se apertando aqui dentro só de imaginar os seus longos cabelos muito escuros descendo em ondas pelas costas, as flores sob seus pés, as mãos delicadas sujas de tinta, o sorriso doce feito o som da mais doce cascata. Como eu gostaria de tê-la conhecido naqueles tempos, mesmo que não pudesse tê-la como mulher. Mas nossos caminhos estavam destinados a se cruzar só muito tempo depois, e por enquanto eu continuava suspenso sem imaginar as garotas incríveis que conheceria e, dentre todas elas, Alice. 


Primeiro eu preciso explicar um detalhe importante sem o qual muitas coisas não fariam sentido. Tem a ver com o já mencionado fato de Carlão ser um Abutre e o cara mais apegado à idéia de liberdade que já ouvi falar. Porque queria mostrar a Alice tudo sobre ser livre, ele mesmo a ensinou a enrolar seu baseado, a fazer tatuagem caseira e, o melhor , falsificou para ela uma identidade que a permitisse entrar em todas as festas desde os 14 anos. Elba só olhava, rindo com quele seu jeito simples despreocupado de tudo, já que pra ela tava tudo sempre muito bem. Esse é só um exemplo pequeno do quanto a família deles era louca, mas na verdade eu quero contar outra coisa a qual devo retomar antes de me perder de novo.


O fato é que, naquela tenra adolescência da pequena Alice, ainda antes de seus 10 anos, o velho Carlão se cansou do mesmo céu de brigadeiro, da mesma água clara e limpa, do marasmo de todos os dias, enfim. Decidiu que era hora de pegar sua mais antiga companheira, a Harley-Davidson de tantas histórias, e partiu num entardecer sombrio quando o sol se escondia atrás das nuvens e as copas das árvores dançavam com o vento sobre suas folhas. E Alice chorou ao vê-lo partir, e Elba ficou em silêncio ao seu lado. Desde então, em todos os crepúsculos seguintes, elas se prostavam ao portão do velho casarão colonial, e enquanto o sol ia embora devagar sobre as nuves brancas, e o escuro abraçava o mundo com seu frescor noturno, elas esperavam, esperavam, esperavam pelo homem de suas vidas. E ele não voltava. 


Então Elba se cansou de esperar, e voltou aos incensos que a tinham convertido ao budismo alguns anos antes. Mas Alice continuou ao portão por dias, semanas, meses, até que quase um ano inteiro se passou. Foi isso que ela mesma me contou muito tempo depois, exatamente como narrarei a vocês. Uma noite, a mais chuvosa noite da qual se teve notícia, quando todas as árvores se curvavam sob o peso cruel da água despejada pelos céus, o ronco da velha Harley se fez ouvir no escuro, e era Carlão que estava de volta. Elba lhe abriu as portas do casarão com o seu sorriso que entendia tudo, e só pra você perceber o quão maravilhosa ela era, saiba que a única coisa que disse depois de quase um ano de separação foi isso: "senti sua falta, meu velho". 


Já Alice se trancou no quarto, o seu pequeno santuário de menina, e ali ficou remoendo as mágoas pelo semi-abandono de um ano que seu herói forçara. Carlão entendeu tudo, não precisou dizer nada. E só depois de uma semana quando Alice continuava em sua posição irredutível de garota ferida, ele chegou junto a ela no jardim e lhe deixou o exemplar mais velho e gasto de um livro no mundo. Era a primeira edição de "On The Road" lançada no Brasil, e roubada diretamente de uma loja em São Paulo. Outra semana sem uma palavra trocada. E tudo que ela me disse foi que, assim que terminou o livro, aos 9 anos, se apoderou de uma caneta e gilete, e usando as técnicas que o próprio Carlão lhe ensinara, tatuou no peito essas quatro palavras: "eu amo Dean Moriarty".


Saiu correndo pelo casarão até chegar junto a seu velho pai que calmamente fumava um baseado de fim de tarde e levantou a blusa para lhe mostrar o mais novo símbolo de batalha que ela mesma se dera. Ele não disse nada. Sorriu com aquele sorriso profundo que um dia eu conheceria, e pelo que sei de Carlão só posso imaginar como se sentiu. Quanta nostalgia e tristeza devem tê-lo invadido ali, naquele exato instante em que se deu conta de que sua gatinha Alice estava crescendo para se tornar em breve a Marylou ou Camile de alguém.




domingo, 11 de março de 2012

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis.

Foi na época do Renatinho, que tinha uma banda, e todo mundo estudava na UnB, e todo mundo morava na Colina. Aquela procissão de bicicletas descia todo dia até o Lago, ou até o Parque da Cidade, pra fumar o baseado legal arranjado escondido, e falar das meninas de Taguatinga. Quem não tivesse a sua mina, arranjava nas festas da L2 Norte, da W3. Quem não tinha banda, montava uma só pra tocar no Porão do Rock. Ah, a Brasília de todas as promessas, de Ceilândia e Samambaia, de tantos sonhos, tantas ilusões. A Brasília de quando eles eram jovens, os caras e as gatas, no auge dos 18 anos.
X
Muitos daquela época se lembram do Edu. Do Edu que conheceu a Mônica quando ela fazia medicina, uma puta guria fã de Godard e de Rimbaud. Mas quem se lembra da Dani? A filha dos "paraíbas", que tinha o cabelo enrolado, a pele morena, falava engraçado puxando o "t", irmã do Fael que vendia a boa erva? Daniela Acácia, a do sorriso grande, que com os dentes bonitos enchia a boca pra falar do Dinho, que conhecia os meninos do Plebe Rude?  Filha do professor de Sociologia e da professora de Física. Naquela época, quem não a conhecesse perdia o melhor de Brasília. Dani era a atração, o motivo pelo qual alguns moleques iam às festas, a menina dos olhos da galera, amiga das bandas, dos mendigos, dos professores, daquele universo inteiro. Eu sei porque ninguém se lembra. Foi triste demais, trágico demais. Ao contrário da Mônica, a história da Dani não teve final feliz.
X
- Essa é a Dani. Dani, esse é o Zeca.
- Pinta hoje na Unb que vai ter show do Renatinho. 
Ela só disse e saiu correndo, deixando atrás de si aquele rastro de juventude, o perfume de uma vida que pulsa. E ele ficou olhando os seus cabelos que balançavam nas costas, e iam sumindo, sumindo. No seu coração nasceu uma doçura, o enternecimento que sabemos ser afeto, mas que a princípio não entendemos. As coisas crescem dessa maneira. É o sorriso que brota sem motivo, ao ver a pessoa querida. Ir assim, identificando aos poucos os seus gostos, as coisas que ambos gostam. E achar que é destino quando gostam das mesmas coisas. Os beijos dados nos corredores da universidade, e o sexo tão íntimo depois dos shows, andar de mãos dadas no Parque da Cidade, ficar no telefone à meia-noite, fumar um baseado juntos. E depois de um tempo, o ciúme que nasce das ausências, dos amigos mais antigos, das noites em que um sai sem o outro. Ela sabe que o ama, mas ele tem tanto medo. Sempre o medo, sempre esse maldito medo de perder, que vai sufocando todas as coisas bonitas já vividas.
X
- Me desculpa.
- Vai embora, por favor.
- Me desculpa, pelo amor de Deus. Eu não saio daqui enquanto você não me desculpar!
- Zeca, é mais de meia-noite, amanhã a gente conversa.
- Não, Dani, me desculpa. Me Desculpa, por favor. Eu juro que não queria ter feito...
- Mas fez.
- Me desculpa, eu te amo, pô. Você é parte da minha vida, não consigo ficar desse jeito, vendo esse ódio na sua cara.
- Isso que você fez não tem perdão.
X
Quantas vezes ela disse isso depois. E quantas vezes cedeu, olhando as lágrimas desesperadas que Zeca derramava, ajoelhado aos seus pés. Por ele, afastou-se do Dinho, dos meninos da Plebe, e até do Renatinho, que não aceitava aquela submissão. E Dani, que era a menina mais legal do pedaço, foi se tornando a menina só dele. Passou a ostentar mesmo, sem que ninguém percebesse, as cruéis marcas daquele amor doentio. Escondeu de todo mundo a sua dor. Aguentou calada o peso daquelas mãos que ela amara, e que agora só causavam dor. Abandonou a viagem pra Europa e ficou ali, à disposição dos caprichos destrutivos do Zeca. E todo mundo o odiava, e todo mundo se perguntava quem teria os apresentado. Mas ninguém sabia, ninguém nem desconfiava do que ela sentia. O Renatinho morreu, Edu e Mônica se casaram, e da Dani são poucos que lembram, sem mesmo perguntar porquê.

Agnus Dei, dona nobis pacem.

O domingo se estendia em horas demoradas, como se quisesse durar para sempre. Havia uma quietude melancólica nas ruas, o passar esparso de carros indo sabe-se lá para onde. E ela deitada sobre os lençóis bagunçados, mirando fixamente a janela. Todos os seus livros jogados ao chão, abandonados, acumulando poeira de dias seguidos. Sua boina francesa, de um vermelho vibrante, os lindos vestidos coloridos com raras flores de primavera, os pequenos vidros de perfume, abertos, secando com o calor, ou quebrados, espalhando cacos pelo chão. Ela já se cortara uma vez, pisando sem querer neles. Alguns cacos minúsculos de vidro ainda ferem seu pé. A paisagem triste de um leito de morte, silencioso, quieto, cercado pelo caos dos móveis. 
X
No rádio toca um fado que é a consumação de seu destino. Ela não consegue tirar da pele aquele cheiro inconfundível de sabonete e cigarro, tão vivo em seus cabelos. Não consegue se mover, como se seus ossos estivessem quebrados. Padece do mesmo mal da Dama das Camélias, ali, abandonada e só. Nadou tanto tempo contra a corrente dos anos, foi brava mantendo-se de pé, encarando os olhos que a acusavam de promiscuidade. Mas nem o seu herói romântico lhe valeu. Na odiável verdade dos olhos roxos, inchados, está a marca que ele lhe deixou. Quantas vezes não nos traíram os amores? Julien Sorel também tentou matar sua amada, ele, tão bravo, tão belo. Mas ela estava longe de ser sra. de Rênal. Longe mesmo de uma Marguerite Gautier. Era ali, na total desgraça, uma ninguém.
X
- Então ele chega e a olha, estirada entre os lençóis desfeitos, na desolação de uma deusa decaída. Junta os copos que se acumulam ao redor da cama, as garrafas de vinhos baratos, de whiskys Passports e Teatchers. "Como ela tem coragem de se envenenar com isso?", pensa. E seu tênis velho pisa sobre os cacos de vidro onde ela se cortou. Tropeça nos livros, antes de também recolhê-los, jogando-os de qualquer jeito sobre a mesa do computador, ainda ligado. "Que puta bagunça" ele diz pra ninguém, acendendo seu velho Dunhill. Senta-se na cama, ao lado dela, percebe seu vestido rasgado. Há um pedaço dele no parapeito da janela. A cena de um suicídio, do fim irremediável e trágico. 
X
Mas ela vive. Uma leve respiração arqueia aquele seu corpo pequeno, inerte, devagar, bem devagar. E ele se deita, puxando-a para perto, alterando seu sono já tão intranquilo. Não se lembrava de ter sido tão forte, mas os olhos dela ainda têm aquele roxo estranho, odiável, que não eram olheiras. E ela afasta o seu abraço, com frágeis empurrões e um choro sem força, entregue. Perdeu antes mesmo de começar: lá está novamente aquele cheiro de lavanda e cigarro, diante dela, no seu nariz. E assim, vendo que sua resistência é inútil, vai se deixando amolecer naqueles braços, encolhendo o corpo pequeno contra o peito dele, contra sua camiseta branca. E chora baixo, quase imperceptivelmente, mas seus suspiros a denunciam. Ali eles ficam quietos, num abraço tão desigual, tão cheio de mentira. 

continua. 


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

é só a chuva

dá certo medo olhar pra um céu todo nublado, assim, daqueles escuros mesmo. é uma atração ao mesmo tempo mórbida e engraçada. você olha e pensa: caralho, vem chuva grossa por aí. então fica preocupado pensando se terá tempo de se abrigar, ou de terminar o que tem de fazer, e encara as nuvens que se movimentam em sua direção. sofre e olha, sofre e olha. 

eu não estava lá muito preocupada com a chuva. tinha umas roupas no varal, mas o sol sempre volta mesmo. e outra, aquela passagem tão desejada já estava em mãos, eu tinha conseguido, pra que me preocupar? com isso na cabeça recebi a chuva. cara, e quão forte ela foi. me abriguei embaixo da tenda de um pitdog na praça, mas nem adiantou tanto. ventou, as gotas de água batiam com fúria sobre todo mundo, sem contar a enxurrada frenética que começou a descer.

mesmo assim não me preocupei. pra quê? na verdade, me deu uma grande vontade de rir. quanta afetação nas pessoas que fugiam da água, do vento. as meninas protegendo seus cabelos alisados, os caras com capacetes no braço, gente que talvez eu nunca mais veja, mas que naquele momento compartilhavam do mesmo abrigo que eu. às vezes a gente passa por esses momentos imperceptíveis de comunhão sem nem se dar conta. à medida que a força do vento aumentava, a tenda começou a balançar, e balançar e balançar. o brilho dos raios, acompanhado sempre de trovões, vinha se aproximando devagar.

se a tenda caísse, ou se algum fio descascasse, enfim, se desse merda, morreríamos juntos, estranhos que éramos. 

vou confessar, não estava tão tranquila assim. meus pés me incomodavam incrivelmente. olha, eu posso suportar muita coisa, mas nada me irrita tanto do que sentir meus pobres pés encharcados dentro do tênis. é um efeito psicológico, mas começo a ter calafrios e a tremer como se estivesse dentro de uma geladeira. aí, já que a chuva não ia parar, nem meus pés secarem por tão cedo, decidi parar de pensar naquilo. o barulho água cando é bom pra fazer pensar.

então reparei mesmo nas pessoas ao meu lado: uma freira e um motoboy. que trio estranho faríamos se alguém se importasse conosco. mas não, enquanto cada um ali se indignava com a chuva, reclamando sem parar, acho que eu era a única alma a prestar atenção nos outros.

o motoboy resmungava consigo mesmo que uma chuva daquela destelharia a casa dele, molharia todos os móveis, alagaria tudo. um figura muito dramático, na verdade. preferi prestar atenção na freira. ela era tão novinha! sempre faço imagem de freiras velhas e bondosas, com rostos de coração e olhar angélico. mas aquela era novinha mesmo, não devia ter mais que 20 e poucos anos, e tinha uma cruz bonita a valer no pescoço.

às vezes ela repetia "Jesus amado", "Jesus de glória", espantada com a quantidade de água que subia quase até na canela. ficamos um tempão lá, e eu olhava de solsaio, formulando algumas perguntas pra mim mesma: porque entrou para a vida religiosa? o que achava das pessoas não cristãs? tinha fé o tempo todo? era feliz? o que seus pais achavam disso? me bateu mesmo um ímpeto meio Holden Caulfield, e eu fiquei juntando coragem pra falar com ela. quando estava a um passo de conseguir, porém, um carro parou de frente à nossa tenda, e ela entrou. um cara dirigia. quem seria ele? quem seria ela? pela minha falta de coragem, vou ficar com essas perguntas incógnitas para sempre. maldito medo de se falar com os outros.

sobrou-me o motoboy. esse resmungou o tempo inteiro. resmungou tanto que depois de alguns minutos até eu me perguntava como estaria minha casa, se o vento afastara as telhas, se meu quarto estaria alagado, ou se eu tinha esquecido a janela aberta e o vento faria a chuva molhar minha cama, tipo isso. comecei a me impacientar. não queria prestar atenção nessas coisas! queria olhar despreocupada pras ondinhas que o vento fazia sobre as poças de água movimentadas pelos carros, parecendo ondas minúsculas de um mar imaginário. 

foi então que a chuva começou a parar. os mais corajosos saíam correndo em meio aos pingos esparsos, agradecendo a Deus pelo fim de tamanha tempestade. foram saindo todos, até que fiquei apenas eu. já não estava preocupada. era um mistério bonito, a vida, e até tempestades como aquela. a chuva sempre cai, o sol sempre volta, o vento é uma carícia. 

decidi pedir um suco de goiaba e vim bebendo no curto caminho pra casa. cheguei, tomei banho, me aqueci e liguei o computador. não havia uma gota sequer de chuva na casa inteira. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

em madrugadas como essa

para m., que foi meu melhor amigo e meu maior amante por algumas noites.


Quero um amor que me cante Joni Mitchell à meia noite
me pinte em quadros onde serei sempre bela,
Sem envelhecer.
Um amor que acenda velas para eu dançar
Que vista meu corpo depois de despi-lo 3 vezes
E, ao me ver furiosa, venha fazer cócegas em meus pés.
Quero um amor que saiba escrever poesias, mais que recitá-las
E que enderece todas elas a mim
Porque nos versos seremos para sempre amantes
Mesmo depois que ele se for.
Um amor que suba em árvores, colha flores
Fume seu baseado, nu em frente á janela
Escondido dos olhos de todo mundo.
A lua seria nossa luz, um colchão velho seria nossa casa
E quando eu sentisse dor
Ele me abraçaria, dizendo “nós dois vamos sobreviver”.
Diria todas aquelas velhas mentiras
Que tanto agradam aos ouvidos.
Um amor doce pela manhã,
Que fala sobre a chuva de primavera,
E anda de bicicleta entre os carros sempre escuros.
Ele deixaria seu cabelo ao vento,
Correria sobre a grama e me chamaria de “tonta”
Ao me ver ter medo das grandes lagartas verdes.
Quando ele brigasse, eu o amaria
Quando ele partisse, por ele choraria
Faria vigília nas noites frias, velando seu sono tranqüilo
Lhe daria beijos soturnos enquanto dorme.
E por um ano, um mês ou dois, seríamos felizes
Daquela felicidade que se tem ao ouvir Joni Mitchell
Em madrugadas silenciosas como esta.